O Fenômeno Adolescência

Tags

, , ,

Temos verificado, desde algum tempo, um crescente número de estudos voltados para a adolescência. Observamos que muitos dos comportamentos apresentados por alguns adultos são imitações dos encontrados nos adolescentes. Com a falência da função paterna, o processo adolescente tem se alongado através dos tempos, bem como, temos visto novas formas de manifestações sintomáticas características dessa idade. Com a descoberta do complexo de Édipo, a adolescência perde a importância que tivera no início da construção da sexualidade e é eleita, por Freud, como lugar de uma das mais difíceis e dolorosas tarefas que se deve empreender, ou seja, o desligamento das figuras parentais (DANTAS, 2002).

A “crise” adolescente representa, portanto, fenômenos complexos de natureza psicológica que, por sua vez, tem estreita relação com o contexto social do adolescente, influenciando assim, dialéticamente, um ao outro. Apesar de dialética, a psicanálise contribui na observação de padrões emocionais que indicaria a possibilidade de explicar os múltiplos fenômenos do comportamento humano a partir de sua relação com a infância do adolescente.

Para a psicanálise, o adolescente se encontraria num estágio de confusão interna – como se uma “neurose aceitável” – em que é exigido dele a renúncia das figuras parentais como objeto de amor e a eleição de objetos  terceiros como substitutos. Conflitos como estes trazem a revivencia do complexo de édipo e seu temor à castração. Outro conflito inconsciente desta fase diz respeito ao luto pelas figuras parentais, que pode se dar de maneira tranquila ou desorganizada e constante.

Erik Erikson, autor neopsicanalista, pesquisou as tarefas evolutivas psicologicas básicas para um desenvolvimento saudável, ele ressalta a importancia do adolescente em definir sua identidade, caso contrario a difusão de sua identidade trará problemas psicossociais. Por identidade temos um complexo grupo de fenômenos como valores, crenças, preferencias, relações que o individuo estabelesce para si; esta identidade é construida após o período de latência em que a criança ainda está muito vinculada a identidade dos próprios pais. Portanto, percebemos que a desvinculação identitária com os pais abala a estrutura psiquica do adolescente que fica temporariamente buscando no mundo identidades a se vincular. É onde entra a importância dos grupos e o perigo das drogas. A assimilação de ideais dos grupos para a personalidade, serve, como muletas, à falta de uma identidade consisa e pessoal.

Sem reduzir o fenômenos da Adolescência precismos lembrar que a família que outrora compreendia seu filho de 10 anos, que conhecia seu dinamismo em casa, conhecia sua relações, gostos pessoais; a família que outrora conhecia aquele sujeito, perde o referencial ao qual utilizava na interação com seu filho adolescente, é onde temos as conhecidas desavenças entre família e adolescente. O grupo também tem papel fundamental nestes conflitos: em geral a realidade de um grupo tende a ser supostamente autonomo, indicando que suas relações visam um ideal de independencia em relação a tudo e a todos.

A psicanálise traz como contribuição a esse tema o conhecimento de que o funcionamento mental ocorre a partir de dois princípios: o princípio de desprazer-prazer e o princípio de realidade. O princípio de realidade é desenvolvido muito lentamente no decorrer da vida do ser humano, de modo que por muito tempo os individuos ficam submissos ao principio do prazer-desprazer. É exatamente o que ocorre na adolescência: sob o regime do principio do prazer o adolescente deseja a independencia, sem entrentanto ter juizo (principio de realidade) sulficiente para analisar que sua situação o impede de atingir seus objetivos (seja situação financeira, emocional, psicologica, comportamental, maturacional, educativa ou mercadológica). Um adolescente de 14 anos não possui condições de ser livre apesar de seu desejo (incoerente com o principio de realidade) bem o desejar. É o que Calligaris (2009) chama de moratória: adolescencia é um tempo de moratória pois ao adolescente é pedido que espere por sua liberdade, que espere um tempo para que você possa concretizar seus desejos. O que Calligaris nos fala é justamente sobre a imaturidade do princípio de realidade diante do princípio do prazer – espere a maturação do princípio de realidade e aí pense com um juízo mais claro sobre as possibilidades da vida (MOHR, VALORE, 2009; FREUD, 2006 (1925)).

Questões amplas como as apresentadas somam-se a indeterminação do futuro, ao comportamento ambivalênte da sociedade em relação ao adolescente, que já não é criança e nem adulto, e as questões biológicas do adolescente em puberdade. Ampliemos estas questões.

Por vezes encontramos na sociedade espectativas quanto ao comportamento de um adolescente, ora esperam um comportamento maduro, ora esperam algo vindo de uma criança; é inconsistente ao adolescente comportar-se de acordo ao esperado pois muitas vezes o que se espera é que ele faça errado – representação social forte que vê o adolescente como problemático (esperam, pois, respostas problemáticas).Essas condutas ambivalentes da sociedade frente ao adolescente aumentam sua ansiedade ao interagir socialmente, levando o adolescente a agir estereotipicamente para não frustrar seus ouvintes, ou o oposto, frutram-se todos e eu permaneço individualista aos meus desejos.

A indeterminação do futuro também é relevante tendo em vista a falta de maturidade para escolhas. Muitos escolhem por tentativa e erro. Outros por pressão familiar. Outros por conveniência já que o pai trabalha na área.

A relação entre adolescente e sua imagem corporal também é importante. Com a chegada da puberdade o corpo vai se reestruturando radicalmente, muitos adolescentes sentem um estranhamento natural com relação ao novo corpo: a barba como signo cultural pode representar que aquele jovem já é quase um adulto e, portanto, logo tera acesso as coisas de adultos como o sexo; ou então, como simbolo psicologico, pode significar uma identificação indesejada com o pai, e isso poderia gerar descontentamento quanto a nova aparência. A reestruturação da imagem corporal pode levar a tantos conflitos internos quanto externos, como quando um grupo social a qual o jovem deseja pertencer o impede devido a seus atributos físicos.

Após todas estas considerações, convém pensarmos a adolescencia numa analogia à Ave Fênix: como a fênix, a criança deve “morrer” para ceder lugar nova fênix – o adulto –, as cinzar simbolizando um espaço de transição, um vir-a-ser repleto de caminhos e possibilidades, assim é a adolescência, um periodo turbulente frente ao futuro incerto (MOHR, VALORE, 2009).

______

Logo editarei as bibliografias.

Danilo Negrão

Horizontalidade: mito?

Tags

, , ,

Relações horizontais são, na minha definição, um tipo de relação em que não há jogo de poder envolvido. A prática da psicologia social comunitária, por exemplo, por vezes enfatiza a necessidade de estabelecer uma relação horizontal entre profissional-cliente através de debates, reflexões e conscientização. A palavra chave para a psicologia social comunitária, ao (pouco) que pude entender, em relação a se estabelescer relações horizontais é troca.

Troca, entretanto, envolve alguém que fala e outro que ouve; concordando ou discordando do que falava, o que antes ouvia tende a replica. Muito bem, existe durante esta relação não uma horizontalidade, mas uma sutil verticalidade – o que fala, expõe-se, é ativo; e o que ouve é passivo em relação ao que fala e ao conteúdo da fala.  Mesmo quando a se discorde daquele que falou, e portanto o passivo passa a assumir atividade, a verticalidade só inverteu seu polo. Em um grupo de psicologia comunitária, por exemplo, aquele que discorda da maioria tenderia ou a se juntar a maioria (conformação social) ou a ser excluído; nos dois casos há dominação da maioria. Em nada isso difere, a não ser em termos de quantidade abrangente, da questão da homossexualidade, transexualidade ou questões étnicas, pois estes, sendo minoria são passivos em relação às decisões de poder majoritário.

Posso estar enganado, mas não consigo encontrar horizontalidade nas relações sociais. Nem consigo imaginar uma sociedade com ela.

Coerção e Análise do Comportamento

Tags

, , ,

ImageSidman, em seu reconhecido trabalho, investigou as influências da coerção nos diversos setores das instituições sociais, chegando a conclusão e mostrando-nos como a coerção se encontra onipresente em todo o mundo: desde a mãe que bate em seu filho para que ele deixe de irritá-la (ao invés de brincar com ele), até  órgãos governamentais que punem motoristas imprudentes (ao invés de ensina-lo as leis).

Mas o que seria coerção?

Coerção é o ato de induzir, pressionar ou compelir alguém a fazer algo pela força, intimidação ou ameaça. Por Sidman, é uma forma de controle do comportamento por meio de técnicas que levem as pessoas a agir pelas regras, ou de acordo com, aquele que coage.

Apesar de defender que o controle do comportamento por meio da coerção ser até certo ponto negativo ao desenvolvimento social, individual e cultural, Sidman esclarece que coerção funciona. Funciona, mas:

      1. É Temporária: funciona enquanto a coerção estiver sendo aplicada.
      2. Demanda constante coerção: e isso dá trabalho
      3. Gera efeitos colaterais: como o contracontrole e respostas emocionais problemáticas.

Ou seja, a eficácia da coerção até existe, no entanto é muito limitada e sua eficácia é baixa.

Sidman encerra o capítulo por considerar uma opção à coerção que funciona para a Analise Comportamental com eficacia duradoura e sem efeitos colaterais indesejados e inesperados: o reforço positivo, visto deste modo, oferece uma alternativa eficiente, isto é, incentivando comportamentos desejáveis ao invés de punir os indesejáveis é preferível à coerção.